Eu estava aqui: quieta, decidida. Tinha deixado tudo, tudo para trás e superado totalmente o desejo bobo por abraços aconchegantes que me acompanhou nas primeiras semanas do ano. Eu era só tese, trabalho, direitos humanos e humanitários. Às vezes yôga e tarot, meus amigos e minhas viagens. E estava feliz com isso, bem-resolvida nas minhas ocupações independentes e solitárias.
Aí vc chega com um jeito de quem não vai ocupar espaço nenhum, tipo sem fazer barulho, tipo na ponta dos pés... Tipo um gato que só vai tomar quietinho o seu prato de leite e depois partir em sua agilidade felínica. E, nessas condições, eu deixo vc entrar. Certa de que o meu papel seria simplesmente o de colocar o leite no prato e depois te ver saltar ligeiro para sei lá onde - e nem me importaria saber. Certa de que seria como um trem que atravessa a ponte, pára rápido e segue adiante.
Mas, seu tempo era outro. Você demorou e depois demorou mais e depois demorou mais ainda. E, ao invés de ter ido embora, ainda tá aqui, andando por lugares para os quais eu não dei passagem, mas que você, sem eu perceber, acessou com sua calma. E está deitado, esparramado, exatamente como um gato folgado! Gato que eu, agora, estou morrendo de vontade de afagar, mas receio que, se o fizer, vai embora assustado, com toda a sua desconfiança nos seres humanos. Ou que, de medo, me arranhe. Se ao menos você soubesse que tipo de humana sou eu...
Como eu pude confiar em mim? Como eu pude ser tão boba de achar que eu consegueria manter a minha guarda? Como eu não sabia que você, com toda a sua lentidão - e por causa dela-, ia fazer tudo acontecer tão rápido?!?